o sujeito chega em casa no fim do dia, luzes apagadas, janela aberta, vento sul na sala. faz mais frio ali do que na rua. liga o computador mas desliga imediatamente. confere o celular, as horas e percebe que há tempo de sobra até o próximo compromisso. pensa em acender as luzes como de costume mas desiste tambem. da janela observa a rua, o trânsito, pessoas, a dança comum da hora do rush. seria igual a todos os dias. mas este não. esta era a última mirada naquela paisagem, o último entardecer naquela janela. dali partiria em definitivo. estava determinado a ficar ali parado. queria fitar os detalhes, decorar as cores, as texturas. queria lembrar o cheiro que sobe das ruas, a distância entre o parapeito e o chão, quantas estrelas podia contar nesse céu, quantos letreiros conseguia enxergar, quanto de natureza ainda existia por entre as construções. pensava que assim poderia remeter-se a esse lugar sempre que desejasse como um atalho na memória. mas não, esse esforço não era preciso. era fechar os olhos e desenhar com exatidão o quadro da janela. estava tudo ali. chorou uma lágrima. não sabia se de cansaço, ou nostalgia, ou esperança. ou tudo ao mesmo tempo. e também medo. e também alegria.
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só se leva o que se guarda no coração.